Ainda



Lá estava você. Indomada. Intocada. Não intocável. Após meses a fio, consegui obter algo positivo. Sim, aquele leve tocar de lábios, ainda que sem envolvimento da língua, para mim já era lucro. Fascinante. Envolvente. Teu perfume entrelaçado em mim. O minuto que durou a eternidade. Candida, de alma pura. Nenhuma ilustração. Literal. Toda singela. Feita em gestos para mim. Cada gesto que me doía por não tê-la. E sentir seu coração pulsante e sua respiração enquanto nossos lábios apenas selavam o sentimento mais fraterno. E ter que acreditar num caso sério e na melancolia. Confesso que também me elevei. Mas é que aquela imagem jamais pensei ser realidade. A consagração demorou a vir. Pra minha sorte, pois soube aproveitar cada minuto da espera. O melhor foi que não me disses que estava preparada, apenas aconteceu. Tua pele ali, exposta. Tua carne crua sendo devorada pelos meus olhos famintos. Te desejava em todos os sentidos. Soube lidar com tua inocência, mas não deixava de cravar meus desejos em ti. E a cada mordida, a cada beijo, nossos corpos se harmonizavam. A mistura de dor e prazer em sua face me excitava ao mesmo tempo que preocupava. A mistura de sangue e fluídos. Esse momento deveria ser lindo. E estava sendo. A temperatura subia mas não havia tempo para rubores. Somente para amor. O mais profundo, literal e moderno. Por isso na primeira vez dói. Por isso não se esqueça dói.

Heroe.

Talvez se todo esse tempo fosse passivo de saudades. Melancolia que não pode ser. Daqui de cima tudo é tão distante. Exigente. É correr pra lá e pra cá como quem quer lhe proteger. Que nada de mal lhe aconteça. E é nesse hiato distante que tudo esclarece. Você é mulher de um mundo que eu não conhecia. Desde quando existem estas características? O seu perfume não é mais igual. De um ponto que eu lhe avisto, as mãos cobrem os braços afoitos por calor imediato. E já sabendo o que será que cada um pensar de você é libido. Afoita. Entre as mãos, as esquinas são cada vez mais cheias de ninguém que lhe procure. Eu medito aqui de longe. Dos quartos dessa cidade, eu quis ativo lhe preencher entre os lençois. Dos teus quartos, um meio sagrado me devolve a ti, não obstante ao sóbrio inibido amor. Algo se distorce. Eu me ligo a você. O telefone dispara. Numa hora escura. Num quarto tarde eu volto ao mesmo lugar. Receio de se achar. O seu lugar. Dentro de mim. Eis o momento que eu sou mais um. Se o perigo é alto, o sonho do tempo é saber o que a vida vai sentir. Agora é acelerar o passo. Eu sinto, mas não vou ficar.

Le mensonge est bonne


Marquês de Sade, à vontade. Lá estava ela, se entregando a mais uma fantasia. O encontro foi marcado num restaurante. Ansiosidade. mal ela sabia com quem iria encontrar. Experiência divertida. Ele não usava nenhuma peruca e nenhuma roupa diferente de seu estilo habitual. Mas se passava por um estrangeiro. Sotaque. Francês. Bicos pra cá, bicos pra lá. Por fim, ela beijou o gringo. Susto, pois ele reagiu com espanto como se mal soubesse o que estava pra ocorrer. O namorado com personalidade mudada a espantava muito. E excitava. Se inundava de vontade de conhecer o sexo parisiense. Ele, queria fazer algo pra ela depois de tanto que já recebeu. Se entregaram ao carnal, já em casa. Ela, ao ver as intimidades dele reveladas, se espantou como se nunca tivera visto nada igual. E viu, inúmeras vezes. Mas o que fez, foi a primeira vez. Despiu-se ficando apenas de calcinha. Uma mão envolveu o membro. A outra, desceu para suspirar. Com a maior delicadeza, o envolveu em sua veludez. Rapidamente coordenou os movimentos de suas mãos para acompanhar sua boca. Ele ia a loucura. Suce ma bite. O sotaque inebriável. Trocaram as funções. Ela, deitada e ele a beijá-la intimamente. Suce-moi. Me faire venir. Je suis tout à toi. E nesse jogo de palavras buscavam o amor. Ritmaram-se e se conheceram mais. Ofegantes, riam. Nada mal para um primeiro encontro.