Ó, notívaga noite...

Conquanto sonhasse com teus lábios mais do que dedicasse empresa a propósito de possuí-los, contemplar-te todos os dias, todavia, desperta em mim força tal, que me é escusado resistir-lhe.
(...)
Ah, a noite, mãe de todas as paixões. Vejo-te. então tu me vês. Fito-te com toda intensidade e significado que consigo reunir, esperando que tudo compreendas através dos meus olhos, em que descortina-se a profundidade que o amor lhes confere. Aproximo-me. Tu tentas manter-te a calma. Silenciosamente, exprimo-te meus desejos. Enlaço-te. Ser-te-ei delicado. Sei que nunca viveste o amor. Sei que nada sabes dessas coisas.
(...)
Primeiro, apenas beijo-te, como que a viver o último ato da minha vida. E permito-te beijar-me. Os lábios descolam-se delicada e brevemente para dar passagem ao ar, que enche os peitos em haustos. São suspiros, gemidos e interjeições de prazer. Leio-te os olhos, como que à alma, em uma voracidade de sentimentos. E tenho que apoiar-me, pois as pernas me faltam, tamanha a fúria com que vibram e contraem-se em sede luxuriante de sentir-te as suas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário